Associações e hábitos


Eu sempre comento com as minhas mães que o lugar que temos que ter como referência quando falamos de bebês e crianças pequenas é o útero materno.

Naquele lugar de plenitude – o único de nossa vida toda - não temos nenhuma demanda para ser atendida. Tudo está em seu devido lugar. Não conhecemos fome, nem sono, frio nem calor.

Quando saímos do útero, começa então nossa grande jornada de demandas e o aprendizado delas passa obrigatoriamente pelo reconhecimento de nossas sensações corporais. O primeiro grande “monstro” - ou seja, o desconhecido – que o bebê enfrenta, vem de dentro: um desconforto interno na altura do estômago chamado fome! Esta sensação nunca antes sentida faz com que o bebê a comunique para sua mãe pela única via conhecida dele: o choro. Assim, sua mãe lhe oferece o peito, acalentando então aquele “monstro” por alguns momentos. Quando o bebê sente novamente aquele desconforto, ele não hesita em chorar novamente para que sua mãe lhe dê a mesma resposta, que ele já conheceu anteriormente. E assim se criou a primeira associação do bebê, reforçada por duas repetições: quando eu sinto fome, eu choro e minha mãe resolve.

Com o sono, não é diferente. O bebê sente o desconforto tremendo do sono e o comunica. Na lógica da livre demanda*, somos orientadas a oferecer o seio – erroneamente, em minha opinião - a todo choro. E quando o bebê suga o seio, ele relaxa e consegue dormir. Então, a partir da segunda repetição desta resposta, o bebê vai construindo suas associações dentro desta lógica.

A associação é a primeira via de aprendizado de um ser humano. É através da repetição delas que os hábitos** vão sendo criados. Associações passam a se transformar em hábitos a partir dos 4 meses de vida. E aí, quanto mais repetimos as respostas, mais enraizamos os hábitos em nossos filhos, tanto aqueles que desejamos quanto os que não.

Quais associações você ajudou seu filho a transformar em hábitos?


Aquarela de Verônica Calandra

*A Livre Demanda é recomendada pela OMS e pelo Ministério da Saúde – e portanto, também por mim - e significa oferecer o seio quando o bebê demandar, sem estabelecer horários rígidos e duração para as mamadas. Mas isso não significa oferecer o seio a todo choro. Se o bebê acabou de mamar – em seu tempo, claro – e chora, muito provavelmente ele tem outra demanda, que não é mais a fome. Podemos sempre tentar outras coisas antes de oferecer o seio, e assim vamos aprendendo a interpretar os sinais de nossos filhos.

**O sistema de hábitos de uma vida é construído dentro dos nossos primeiros 1000 dias (os 9 meses na barriga e os 2 primeiros anos fora dela). É uma grande responsabilidade para os pais e cuidadores!